Mostrar mensagens com a etiqueta Geração da Viragem. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Geração da Viragem. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, abril 22, 2010

As 3 Gerações: As fontes do nacionalismo moçambicano e a primazia da geração do 25 de Setembro


Amosse Macamo

Não pude resistir a este debate sobre o mérito ou não da periodização da história recente do país tomando como base marcos históricos que delimitam processos históricos decisivos da nossa gesta pela dignidade e independência nacional. Machado da Graça e Júlio Muthisse corporizam o debate num dos jornais da praça. O semanário Domingo também debateu as 3 gerações num dos seus mais recentes editoriais. Entro no debate na convicção de que ao se destacarem alguns marcos e gerações do nosso devir histórico não se pretende, de forma alguma, desvalorizar a acção de outras gerações que contribuíram, a longo termo, para a cristalização da ideia que hoje temos de Moçambique, a nossa Pátria Amada.
Considero também que, ao debater esta questão há que ter presente um facto incontestável: houve neste país uma geração que teve um privilégio inigualável. O privilégio de lutar pela conquista da independência. De lutar pela reconquista da dignidade nacional e da soberania. Pode-se assim dizer que a geração do 25 de Setembro teve uma acção e mérito únicos, irrepetíveis e decisivos na configuração da história da pátria. Do que posso deduzir da literatura (Jean Penvenne, We are all Portuguese: challenging the political economy of assimilation, e Aurélio Rocha, Associativismo e nativismo em Moçambique: contribuição para o estudo das origens do nacionalismo mocambicano) a maioria dos proto-nacionalistas que Machado da Graça cita despertou para a necessidade da luta pelo tratamento não discriminatório quando se apercebeu que os direitos que pensava que tinha não eram respeitados, no contexto do propalado conceito de portugalidade. Esta forma de ver os desafios de então viria a ser ultrapassada pela geração do 25 de Setembro. Pode-se dizer até que esta luta pela integração e igualdade de direitos, nesse discutível conceito de portugalidade, não incluía a esmagadora maioria do nosso povo. Reconhecidamente, há nos escritos de alguns desses precursores textos de indignação veemente pelas servícias a que estava submetida a maioria do nosso povo que incluíam o trabalho forçado, o imposto de palhota, as deportações e as punições humilhantes – se os direitos porque lutavam tivessem sido reconhecidos, a sua acção política subsequente só pode ser objecto de especulação e conjecturas académicas. O que é facto, porém, é que a ter tido sucesso, a luta protagonizada pelos proto-nacionalistas traria ganhos apenas para uma pequena minoria de assimilados e alguns mestiços. Existe, portanto, uma diferença abismal entre luta pela independência e a luta por direitos cívicos dentro de um sistema de dominação estrangeira.
Ademais, há um aspecto que Machado da Graça falha em compreender e que Júlio Muthisse aborda na sua réplica. As fontes (permita-se-me que que use este termo) do nacionalismo devem ter sido várias. Alguns chegaram à consciência nacional evoluindo a partir das reivindicações de igualdade de direitos dentro desse discutível conceito de portugalidade, ou lendo textos dos precursores do nacionalismo moçambicano como João Albazine, José Albazine, Karel Pot, Estácio Dias e outros. Outros chegaram à consciência nacional a partir das suas experiências concretas de dominação e humilhação. Muitos destes não leram nem ouviram falar do Brado Africano. Outros ainda pela sua experiência nos países vizinhos onde o fervor pela libertação era notável. Atrevo-me a dizer que esmagadora maioria dos que corporizaram a FRELIMO pertence a estes dois últimos estratos. Outros ganharam a consciência nacional a partir de um percurso ligado às igrejas protestantes. O próprio Eduardo Mondlane foi produto dos mintlawas que, eram alternativas informais de educação da juventude africana face às restrições práticas e legislativas impostas pelas autoridades portuguesas às igrejas protestantes, através do Estatuto Orgânico das Missões Portuguesas em África, de 1926. Os mintlawas, de acordo com Teresa Cruz e Silva, na sua obra Protestant Churches and the formation of Political consciouness in Southern Mozambique, realizavam “um programa especial de educação da juventude da Missão Suíça, cujo objectivo principal consistia em moldar a personalidade dos jovens dentro de um espírito cristão”. Aqui ensinava-se, entre outras, e sem fugir das tradições dos pastores de gado, da cultura dos povos, e recuperando Tereza Cruz e Silva, as “capacidades como planeamento, organização, auto-suficiência, liderança, disciplina do corpo e do espírito”, o que fazia com que os jovens abrissem os seus horizontes sobre os aspectos sociopolíticos. A isto se junta o movimento de 1949, designado de Lumuku, ou desmame, que consistia em a    
 
:Pos.
   utonomizar a missão suíça em Moçambique para dar origem à Igreja Presbiteriana de Moçambique. O ecumenismo que ganha maior expressão através do Seminário de Ricatla e outros pode ser visto neste contexto de criação de consciência sobre necessidade de independência e de unidade na acção para o seu alcance.
Algumas igrejas protestantes passaram a ser veículos de ideias pan-africanistas e anticoloniais. Esta atitude reflectiu-se através dos hinos cantados durante as orações. Um deles, por exemplo, incitava a África a lutar para sair da inércia em que se encontrava e que, por causa dela, se tornou um “ridículo para todas as nações” porque os seus filhos “são escravos dos estrangeiros”. Uma canção evocativa de Ngungunyane foi introduzida nos cânticos da Igreja Etiópica Luso-Africana, nos anos 30, denunciando as atrocidades coloniais e cantando a angústia de que a população se encontrava imbuída. Recordando Ngungunyane, a canção apelava à revolta e à expulsão dos colonizadores.
Foi destas formações que despontaram, entre outros, nomes de nacionalistas como Gabriel Macávi, Zedequias Manganhela e José Sidumo, tendo os dois últimos sido assassinados pelo regime colonial, que via ameaça na missão das igrejas protestantes de onde estes eram pastores, na sua política de educar o chamado indígena, dotando-o de capacidades analíticas, críticas e de intervenção.
De recordar que as igrejas protestantes, ao adoptarem as línguas moçambicanas como veículos de difusão de informação e formação faziam nascer a auto-estima, o sentido de dignidade e a consciência colectiva de nacionalismo, de pertença, faziam nascer a alma de todo um povo, criavam a revolta positiva e concertada que levou à acção: a criação de uma frente que cresceria na base da sua estruturação celular no seio do povo oprimido. Uma frente que encarnou o sofrimento comum e o ideal da libertação do homem e da terra.
Duvido e muito, repito, que a maioria dos jovens da geração de 25 de Setembro se tenha inspirado nos textos de revolta dos irmãos Albazines no jornal o Brado Africano. Uma grande parte deles inspirou-se no ensino que as igrejas protestantes persistentemente transmitiam, falando directamente para seus corações (usando as suas próprias línguas) em jornais comoNyeleti Ya Misho, da Missão Suíça, escrito em Tsonga, mais tarde substituído pelo Jornal Mahlahle; o Kuxa Kamixo, escrito em tshwa, ligado à Igreja Metodista Episcopal, e o Djambu da África, escrito em ronga. Estes jornais, inspirados por figuras como João Thomaz Chembene, Samsom Chambale, Lindstrom Matite e Benjamim Augusto Moniz estes fundadores do ANC de Moçambique, nos anos 1920, bem como Mot Sicobele, entre outros, transmitiam o ideal de libertar o homem e a terra. Voltemos à Tereza Cruz e Silva mesmo a terminar que diz: “Embora orientados para os interesses dos crentes e das igrejas, os jornais vernáculos publicavam notícias sobre a actualidade política da época” e prossegue “tomando partido do facto de os portugueses serem hostis às línguas africanas e portanto na maior parte dos casos incapazes de compreender o verdadeiro sentido das mensagens transmitidas (...) os jornais publicaram análises sobre a situação política em Moçambique e o mundo, defendendo muitas vezes posições políticas que jamais poderiam ter sido apresentados em língua portuguesa, jogando assim um papel de intervenção social”. É também daqui, e muito daqui, que nasceram verdadeiros nacionalistas, uma Geração de sonhadores que acreditaram na utopia de gerar uma nação. Houve, certamente, outras fontes do norte a sul do nosso país, entre todos os grupos étnicos e sociais. Houve, também, outras personalidades que inspiraram a geração do 25 de Setembro no desencadeamento da luta de libertação nacional.
Não posso pois concordar com Machado da Graça quando faz da periodização da história um exercício baseado nas emoções, em afectividades e em datas cronológicas. Concordo com Júlio Muthisse quando sugere uma periodização baseada em marcos que delimitam processos históricos que marcam decisiva e profundamente o nosso devir histórico. A primeira geração que, sem dúvida imprimiu uma marca indelével na história de Moçambique e do mundo é a geração do 25 de Setembro. A geração do 8 de Março foi continuadora audaz de todo este processo. Esperamos que, também a geração da viragem, da qual faço parte, venha a marcar a história do nosso país com páginas de ouro. 
Amosse Macamo

Share/Save/Bookmark

quarta-feira, março 17, 2010

GERAÇÃO DA INDEPENDÊNCIA OU GERAÇÃO DE FRUSTRADOS ? (Réplica à João Mosca)

Por: Rossana Fernando 
  
 Mais uma vez em Moçambique de férias em Nhamatanda, pertinho das cheias, mas com a minha querida familia, depois de mais uma jornada de trabalho e pesquisas pelas vilas mais desfavorecidas do continente Africano eis que deparo-me com os semanários de Maputo, onde a política e os negócios continuam a ser o prato forte desta pátria que me viu nascer e da qual me orgulho. 
  
 O texto que mais me interessou foi de um tal de João Mosca, que escreve uma coluna intitulada economicando, intitulado Geração da Independência, li-o três vezes para tentar perceber o alcance do seu texto, que em suma revendicava que, para além das gerações de 8 de Março e do 25 de Setembro, existia uma outra geração da independência. O colunista João Mosca da ainda a perceber nas entrelinhas que ele é parte desta geração da independencia, 
  
 Não sou perita de conceptualizações de gerações, mas sei que a geração do 25 de Setembro, a tal geração que lutou e libertou Moçambique do colonialismo tem como ponto de referência o dia 25 de Setembro de 1964, mas as ideias do nacionalismo em Moçambique começaram a vingar entre finais da década 50 e princípios da década de 60. Pela minha humilde percepção esta geração vai até ao ano da independência, ou seja 1975. 
  
 A Geração 8 de Março tem o seu ponto mais alto em 1977, no entanto, esta geração vem de antes de 1977, tendo-se tomado o 8 de Março de 1977 como um ponto de referência para uma geração que assegurou a independencia e a reconstrução de um moçambique pós-colonialismo. Esta é a geração que actualmente dirige o país, independentemente se esteve ou não naquela reunião em que o Presidente Samora Machel decidiu que era necessário assumir o desafio de consolidar a independencia nacional, ou se hoje identifica-se ou não com este ou aquele partido. 
  
 Mosca assume que há um esquecimento da geração da independencia, a pergunta é: porque é que o 8 de Março de 1977 não pode ser o ponto de referência dessa geração se os propósitos que defende são os mesmos ? 
  
 Os porta-vozes da geração 8 de Março provavelmente saiam de uma associação que foi criada por jovens dessa geração cuja adesão não limita a ninguem, muito menos ao Sr João Mosca. Não percebo porque faz uma grande associação entre a geração 8 de Março e aquilo que apelida de nomenklatura. Estará a dividir ou a criar conflitos no seio de uma geração? Com que objectivo ? Que eu saiba uma geração não é um grupinho de pessoas, mas sim toda uma classe de pessoas que vive e marca determinado momento da história. 
  
Que povo é esse que foi esquecido em 1977 quando Samora Machel discursou publicamente fazendo um chamamento à nação para um desafio do momento ? 
 A nova Geração da Independencia existe na mente do Sr João Mosca, mas tem que perceber que esta geração a que se refere e a que veio logo a seguir tem o epicentro no 8 de Março, uns eram mais velhos outros mais novos, mas era uma geração de jovens que iriam construir os alicerces do Moçambique pós-independencia. Tudo o que diz sobre a geração da independencia que João Mosca alega é o mesmo em relação a geração 8 de Março, envolvimento no projecto nacional de construção de uma nova nação. 
  
 Hoje são todos cidadãos na casa dos 50 anos, e tal como bem diz o Mosca muitos tornaram-se ou já eram membros da FRELIMO. Alguns deixaram de o ser, pelo menos desta FRELIMO. Por isso não vejo diferenças e não percebemo o alcance de João Mosca. 
  
 Estranhamente João Mosca fala de elites da geração da independencia (vou passar a chamar de sub-geração da independencia para facilitar até a mim própria na interpretação), jovens de origens sociais e raças diferentes, entregaram-se generosamente e mesmo ingenuamente a causas nobres, mesmo que idealistas uma sociedade justa, de igualdade de oportunidades, desenvolvida, moderna, apenas constituída pela raça humana, sem exploração. Não percebi também onde pretende chegar com esta sua discriminação de grupos. Afinal quem eram as elites do pós-independencia sr Mosca ? 
  
 As interpretações que existem em torno de algum grupo que o Sr João Mosca tentou criar com o seu texto provavelmente sejam resultado da discriminação que faz e que se fez ao longo dos anos deste grupo em relação aos demais, pensando que eram os senhores todos poderosos do império, achando que eram os únicos e eternos pensadores dessa geração e que só eles chegariam a tal nomenklatura que hoje não reconhecem. 
  
 Os pequenos-burgueses, esquerdolas e outras interpretações que o João Mosca faz referência encaixam-se naqueles compatriotas que não estavam interessados na independencia nacional em 1975, mas sim na exploração do novo regime para benefícios próprios. Estes concidadãos colocaram-se cinicamente do lado de Samora Machel e contra o colonialismo pensando que seriam os únicos assimilados que poderiam no futuro tomar conta da nomenklatura, mas para o seu azar esta geração 8 de Março, da qual não assumem, estranhamente, fazer parte, conseguiu provar que é possível viver sem os tais branquelas de esquerda e saudosistas camufulados . Acredito que não é o caso do Sr Mosca que mal conheço, mas é bom que saiba disto. 
  
 Não há nenhum espaço para uma geração da independencia quando temos uma geração 8 de Março, não façam confusão na mente dos mais jovens da geração da viragem, sob pena de a cada dia vir a público uma nova Mosca, Mosquito ou Abelha revendicar uma nova geração. Os Portugueses não têm absolutamente nada a ver com os pontos de referência das gerações 25 de Setembro e 8 de Março, a não ser o facto de les terem sido o mote destas gerações. O Dia 25 de Junho é o dia da independencia Nacional e não dia de geração alguma. 
  
 O Senhor João Mosca diz que existem nomes da sub-geração da independencia de reconhecido mérito e honradez, mas não cita nenhum. Agradeciamos que nos ajudasse a identificar, quem sabe tenham melhores argumentos para não assumirem que fazem parte da geração do 8 de Março. 
  
 A dado passo do seu texto o Senhor João Mosca diz que:  A grande maioria, porque não negros e que lutou pelo people empowerment, foi objecto do black empowerment silencioso mas eficaz. A maioria adaptou-se e hoje, possivelmente, agradecem esse black empowerment. Estará a dizer que a grande maioria desta sub-geração da independencia era de não negros? Está a falar de Moçambique ? de Lourenço Marques ? 
  
 Definitivamente Sr João Mosca, não tenho poucos receios de dizer que pretende desistabilizar toda uma geração com o seu texto,  que é um divisionista de primeira linha, que tem uma elevada dose daquilo que em muitas partes do mundo chama-se dor de cotovelo. Infelizmente estou pouco tempo na Cidade da Beira e não tenho oportunidade de estar em Maputo para conhecê-lo pessoalmente e dizer estas palavras de frente. 
  
 Não faço parte de nenhuma elite e talvês esteja também mais para a geração de 8 de Março do que para a “nova” geração da viragem, mas o Sr João Mosca demonstrou no seu texto algumas tendências discriminatórias de alto gabarito. Em alguns países por onde tenho circulado humildemente e com muito esforço pessoas como estas são motivo de uma repreensão muito forte por destrato ao legado dos países. Sei que neste Moçambique que pouco me vê por perto há uma grande libertinagem de imprensa e de opinião que permite que gente frustrada com a independencia e com o desenvolvimento diga em bom som que não há desenvolvimento e que os principais símbolos da Nãção não servem para eles, mesmo sendo pessoas que vivem, ganham salários gordos e abusam usando dinheiros públicos, e ninguem pia. 
  
 Sr João Mosca, saudosistas tentam a todo o custo recolonizar Moçambique desde 26 de Junho de 1975, um dia após a proclamação independencia, portanto há 35 anos. Nós os Moçambicanos tivemos mais de 500 anos de colonização, portanto, como pode perceber o nosso timming e o destes cidadãos é diferente. Não me venha hoje com estorietas de geração da independencia com uma maioria de não negros.

Fonte: O País 16.03.2010

Share/Save/Bookmark

segunda-feira, janeiro 25, 2010

SOBRE A GERAÇÃO DA VIRAGEM

(Texto do Analista político Egidio Vaz, publicado a propósito do debate em torno da Geração da Viragem, termo adoptado pelo Presidente de Moçambique Armando Guebuza para apelidar a juventude Moçambicana na actualidade )

colegas,

Era minha intenção não intervir neste debate (sobre a Geração da Viragem) porque o acho bastante complexo. Pessoalmente e do ponto de vista metodológico e historiografico, sinto que alguém está sim a colocar a carroça à frente dos bois. A nomenclatura de gerações é normalmente feita a posteriori e não a priori,da mesma forma como se procede em relação à heroificação de um indivíduo . E para tal, procede-se à um conjunto de metodologias, revisita-se a história, verificam-se vários factos históricos; vários acontecimentos e por último, agarra-se num facto para metonímicamente caracterizar a toda uma geração. E por falar específicamente em gerações, importa referir que se está a fazer vista grossa à um pormenor bastante importante para a História deste país. Se quisermos historiar o processo político, social e económico deste país através de gerações, veremos que da dita geração 25 de Setembro á Geração 8 de Março vão aproximadamente menos de 25 anos, que é normalmente o comprimento que separa as gerações. Pior, se por geração se quer caracterizar a todo um período histórico do país, com suas especificidades, então teremos um grande problema em relação ao mérito da geração 8 de Março, devido a problemas que ela arranjou e não resolveu: a morte de Samora Machel, a Guerra dos 16 anos, etc. Assim, Afonso Dhlakama, André Matsangaísse, o General Bobo aka Hermínio Morais (que derrubou a ponte sobre Dona-Ana) seriam também parte indiscutível da geração 8 de Março de que hoje nos orgulhamos! Sobre este potno, falarei numa outra ocasião.
Para o que nos interessa, acho que o Presidente da República decidiu apelidar-nos por geração de viragem para "saciar a fome de uma clique de jovens" da Frelimo que procura uma identidade própria e, por essa via, um lugar ao sol no seio de várias correntes e grupos de interesse do partido Frelimo e assim reclamar um quinhão.
Na verdade todas gerações são/foram de viragem. Viragem contra o estado colonial, buscando a independência; viragem da Província Ultramarina de Moçambique para a República Popular de Moçambique; viragem do sistema socialista/monopartidário para multipartidário e de economia orientada para o mercado, etc.
É essencialmente de actos heróicos indeléveis que distingue uma geração da outra. Ora, chamar-nos de uma geração de viragem não passa de facto de uma piada!
Primeiro porque ela no fundo não existe. Não faz sentido aceitarmos um título porque o trabalho mal começou.
Segundo, porque do ponto de vista metodológico, esse acto equipara-se sim ao acto de colocar a carroça a frente dos bois. Estamos ainda no começo de uma geração; mal se consegue vislumbrar o futuro do país; o país vive à sombra dos feitos da geração 25 de Setembro; os jovens enfrentam problemas básicos, que de forma sistemática torpedeam a sua emancipação; difícil é imaginar sairmos do fundo deste poço como fez oBarão de Münchhausen.
Terceiro, porque na verdade, não seremos nós, a avaliar o nosso trabalho; não estamos em melhores condições para aferir a diferença que fazemos no presente ou faremos no futuro, quando as outras gerações nos suceder. Serão outros a fazê-lo mas nunca a geração 25 de Setembro. E a modéstia obriga-me a agradecer pela gentileza e declinar o título. Pelo menos eu não faço parte da geração de viragem.
Mas voltemos ao princípio para compreendermos porque então o PR decidiu apelidarmos de geração de viragem.
Em primeiro lugar digo que foi sim um acto jocoso. Está a gozar connosco. No fundo, ele até nem assim nos considera. Para quem está atento, e relendo as passagens de colegas, tiradas dos vários discursos do PR, ele impõe condições para que assim sejamos considerados. Por outras palavras, o PR está a dizer aos "seus jovens" que ainda não fizeram nada. E se quisermos merecer alguma distinção, devemos fazer qualquer coisa útil e heróica para este povo. Como se não bastasse, ele aponta algumas dessas coisas. A subtileza da sua linguagem e a ironia patente nos seus discursos e mensagens, fazem com que a maioria de jovens distraídos não seja capaz de ver, pensar e agir. Logo correram em assumir que o PR disse que nós eramos a geração de viragem, qual rolas em fuga debandada!
Segundo, o PR só assim procede porque a Frelimo vive um dilema interessante: o conflito geracional por um lado e a necessidade de garantir a passagem tranquila do testemunho sem contudo descaracterizar a essência do que a Frelimo é, por outro. Não é por acaso que os conceitos deJovem e sangue novo são na Frelimo, polissêmicas. Meses antes de Armando Guebuza assumir a secretaria-geral da Frelimo, falava-se aos quatro ventos da necessidade de se injectar na Frelimo sangue novo. A ideia que a maioria tinha era de que Eduardo Mulémbue ou Hélder Muteia seriam finalmente o sucessor de Joaquim Chissano. Mas, a medida que nos iamos aproximando do momento exacto, apareceu o histórico Nihia numa longa entrevista do Noticias a explicar o verdadeiro sentido de sangue novo e da juventude. Foi nessa altura que ficamos claros. Armando Gubuza foi assim o sangue novo e o jovem que a Frelimo elegeu para assumir a liderança da Frelimo e por essa via chegou a liderança do país.
Há bem pouco tempo, o General Hama Thai veio pôr as coisas muito bem claras, quando em entrevista ao Magazine Independente disse que os Jovens eram capazes de vender o país. O debate levou muitos dias, até que ele voltou a explicar o sentido dessa "venda". Em todo esse processo, fica patente o receio que a Frelimo nutre pela sua juventude, com óbvias consequências para o país inteiro!
E porque a Juventude da Frelimo quer que lhe seja reconhecida algum mérito pelas vitórias que o partido e o governo vêm somando; pelo sucesso dalguns dos seus programas e, acima de tudo, porque estatísticamente o país é essencialmente jovem e daí inferir-se a ideia de que são jovens que dão vitória a Frelimo e seus candidatos, vai assim a Frelimo apelidar à sua juventude de geração de viragem, por outras palavras, geração de nada.

Em vez de discutirmos o trocadilho de palavras, seria útil se os jovens da Frelimo preocupassem-se em aumentar o seu capital político e influência dentro da Frelimo, no Governo e na agenda do próprio PR para assim lograrmos ter um programa de governo que tenha na Juventude, o seu centro de acção. Se calhar, esse seria o primeiro passo para uma verdadeira VIRAGEM em todas suas facetas! E depois, os outros procuriam um nome para designar a nossa geração.

Egidio Vaz


Share/Save/Bookmark