Segunda-feira, Maio 12, 2008

Biocombustíveis: texto interessante

Manos
li aqui no forum mozonline alguns debates interessantes sobre "os bio-combustíveis", não pude dar o meu palpite, estou em viagem e continuo com acesso restrito a internet. mas li uma apresentação do governador nigeriano do Rivers State, mas conhecida como a região do Niger delta, famosa pelos contornos da pobreza e da sua riqueza (o petróleo). o artigo do governador Chibuike Rotimi Amaechi, não toca precisamente a questão dos bio-combustíveis, mas mostra alguns pré-requisitos para uma discussão sobre:
1) que razões levam os nossos governantes e nossos países a “acomodarem-se” no papel de "fellow travellers" em relação a varias questoes de desenvolvimento.
Mas é preciso não perder de vista , durante a leitura do artigo, que Chibuike Amaechi é um político que fazendo uso das posições "imperfeitas" de alguns conceitos que alimentam o dicionário da indústria do desenvolvimento e neo-liberal tenta contrapor introduzindo realidades econômicas sem recorrer a exageros emocionais de que tanto estamos habituados. Em jeito de conclusão (indignação para o governador) o artigo mostra que as relações econômicas desiguais e impostas no mundo São um grande incentivo para a relutancia dos africanos em aceitar a democracia, os africanos votam para governos que não tem controlo nenhum sobre o futuro dos seus paises ( seria o mesmo que as reservas do nosso banco central fôssemos depositar no banco central da Somália).
2) seria inteligente se os nossos governantes discutissem mais sobre o acesso ao mercado global e o fim do protecionismo europeu e americano por forma a garantir a longo prazo o sucesso da agro indústria africana, e porque não da indústria do "bio-combustível".
o açúcar , o trigo, e o feijão mocambicano não podem "entrar" no mercado europeu (as taxas São proibitivas e os subsidios protecionistas), mas sim o etanol, mas quem garante que o etanol vai ser a nossa porta de entrada para o mercado europeu? que garantias a europa e a América dão para a compra do bio-combustível africano?. mas aqui este artigo do governador nigeriano não pretende dar respostas a isso, mostra a importância das perguntas. “Se” com esta questão dos bio-combustíveis não estamos perante o "business as usual" onde os outros já dicidiram la no norte e nos aqui no sul só resta-nos fazer o second argument. A europa já resolveu grande parte da sua questão energética há muito tempo ( a Rússia com o putin foi a solução para isso). mocambique precisa entrar na corrida para a produção de bio-combustíveis mas deve ter cuidado com a ilusão "for growth" para a redução da pobreza. porque a china e Índia devido ao seu poder econômico e político já produzem também o "first argument", para continuarem com o crescimento que estao a ter precisam da africa, na forma mais bruta como fizeram os europeus desde o seculo 15, o caminho ja nao é para as indias, é para africa.
3) no nosso caso parece que já estamos a ser vitimas do "capital especulativo", os que já tem licenças para comecarem a produzir os famosos "bio-combustíveis" escolheram as terras mais "ricas" a preço de banana, não tem know-how e muito menos capital, então o que interessa parece ser vender a licença para terceiros (aqueles com capital e know how) e fazer um galharda de dinheiro).
o mesmo aconteceu com as privatizacoes nos famosos anos da reestruturação econômica, onde as empresas foram "assaltadas" por especuladores sem conhecimento e capital para a revitaliza-las.
4) a experiência da Índia e outros países da Ásia,mostra que a revolução verde faz uso excessivo de pesticidas e sementes geneticamente modificadas, e hoje fala-se do cansaço da terra devido ao seu uso intensivo e "industrial", de graves problemas de saúde afecta os trabalhadores agrícolas e a contaminação dos rios, a longo prazo vamos assistir uma catástrofe ambiental aliada a fome.
E a nossa revolução verde com este andar vai estar de mãos dadas com a produção dos bio-combustíveis? e ninguém hoje consegue dizer como será feito este casamento sem por em causa o meio ambiente e a segurança alimentar, e nem como queremos proteger o uso indiscriminado deste recurso precioso que é a terra (e não venham com esta estória de que mocambique tem terra bastante, porque com a floresta foi o mesmo discurso em mocambique, costa de marfim, Nicarágua, e hoje estamos a perguntar como foi possível?).
5) as manifestações contra o custo de vida nas capitais africanas e não só, mostram a fragilidade que os mercados africanos tem perante o capital especulativo, mostra também que se o preço do petroleo sobe, o preço de produtos básicos e de pesticidas também vai subir, o que devia ser normal,
mas é preciso saber que o "capital" funciona na base de lucro imediato enquanto que a terra precisa de tempo. alguns analistas da praça escreveram que a crise americana ( a fraqueza do "dólar") não vai tocar o nosso mercado, eu acho que falharam na analise, não sou economista, mas a experiência como o "capital especulativo" funciona bem em maputo (o exemplo mais interessante tem sido preço do arrendamento de casas) e a característica da nossa classe empresarial, mostra como enganaram-se.
6) não estou a ser negativista como dizem os outros. quem "virou" negativista foi o mundo: as cidades africanas cresceram, mais gente com idade produtiva emigra para as cidades e vive no meio urbano que nao oferece emprego a todos. o campo ficou para os mais “velhos” que não tem energia e conhecimento para "lidar" com a zanga da natureza: cheias, secas, erosão, a exploração desenfreada da madeira, e os famosos conflitos de terra entre o pequeno camponês e a agro-indústria/bio-combustíveis (aqui perto na manhica,magude, matutuine e xinavane um bom laboratório para ver isso). as mudanças climáticas mostram que o continente africano e a zona sul de Ásia vão perder 20% de produção agrícola devido a mudanças climáticas nos próximo tempos.
7) agora é preciso saber que a fome sempre existiu desde a civilização humana, hoje com o avanço tecnológico e a riqueza “deste adorado mundo moderno” torna-se inaceitável ver a fome como uma coisa "natural e moderna", o mundo nunca conseguiu produzir comida para toda gente e com este ritmo de crescimento populacional torna-se mais difícil falar do fim da fome tão já. Mocambique já fez muito, há 15 anos atrás mocambicanos andavam vestidos de trapos e morrendo de fome, mesmo a 250 km de maputo. seria bom, se eu conseguisse convencer alguns mocambicanos de que o nosso pais precisa é de acabar com a fome em mocambique e não acabar com a fome do mundo, porque para isso teríamos que vender todo o mocambique.
8) alguns dizem que devido as manifestações provocadas pelos chapas (o aumento constante do preço do combustível), estamos perante uma crise energética numa dimensão mocambicana, pode ser verdade. o governo já tinha começado bem com a questão de cahora bassa, o gás de pande e a refinaria em nacala, agora com esta de bio-combustíveis como fazendo parte da estratégia para a criação da reserva energética parece-me muito problemática, pelo menos para leigos como eu.

la famba bicha
Jorge Matine

Quarta-feira, Maio 07, 2008

BIOCOMBUSTIVEIS E CRISE ALIMENTAR MUNDIAL EM DEBATE 105.5FM SABADO 13:00H

Este sábado pelas 13:00h na Rádio Índico 105.5 FM em debate no Programa MOÇAMBICANDO: - Biocombustíveis e Crise Alimentar Mundial - Repercursões em Moçambique.

Participe !!

UMA PARCERIA: RADIO ÍNDICO 105.5FM & MOÇAMBIQUE ONLINE

mocambicando@gmail.com

Quarta-feira, Abril 30, 2008

QUO VADIS MOÇAMBIQUE ?A IGNORÂNCIA É A CAUSA DE TODOS OS MALES, INCLUINDO DA INVEJA!

Parte 1

Jornal Autarca e ZOL
Dialogando (1/2)
João Craveirinha

QUO VADIS MOÇAMBIQUE?
A IGNORÂNCIA É A CAUSA DE TODOS OS MALES, INCLUINDO DA INVEJA!

"A memória do passado é o que sobrevive quando esquecemos o que aprendemos no presente. O futuro será sempre uma incógnita por mais que o planifiquemos". João Craveirinha

A IGNORÂNCIA É A CAUSA DE TODOS OS MALES fruto de todas as incapacidades de raciocínio pois atrofia a capacidade individual de pensar e de activar as partes cognitivas do cérebro - quer as do lóbulo do hemisfério esquerdo (emoção) quer do direito (razão) – inércia, impedindo assim, qualquer forma de desenvolvimento intelectual por mais que se frequentem universidades com bolsas de estudo de critérios paternalistas pós-coloniais em que se poderá obter uma licenciatura por opções directivas de uma política euro-centrista. Género do que se criticava da antiga Universidade soviética Patrice Lumumba. Os da terra chumbam os do chamado terceiro mundo se regressarem ao país de origem, passam sempre, mesmo sem créditos de mérito confirmados. Isso numa forma de não exigir a necessária qualidade qualificativa do discente. Esse quadro visaria manter os africanos num desnível cultural – profissional para uma dependência da importação dos ditos cooperantes vindos do ultramar euro-americano.

Em (Neuro) Linguística e em Cultural Studies e Sociologia cultural, et cetera, aprende-se e se apreende que a LÍNGUA é o factor de comunicação e de linguagem número um e exclusiva da raça humana que nos possibilita desenvolver uma aprendizagem evolutiva mais rápida e aperfeiçoada que qualquer outro animal. Ora a base de toda a inteligência é a memória recorrente do que já passou, se arquivou. A Língua provém de um G.U., – gramática universal hereditária, desde a pré-história, que nos permite acessar ao conhecimento através dessa memória. (Para mais, ver B. Skinner, Noam Chomsky, MIT, 1958 e Saussure 1916, et cetera).

O factor número um que a Europa manteve a ignorância do africano é ter apagado essa MEMÓRIA colectiva – isto é o seu passado – a sua HISTÓRIA pré-colonial antes das invasões árabes - muçulmanas e a dos europeus cristãos. A União Africana está preocupada com a ignorância dos jovens africanos perante a sua história pois isso os mantém num permanente AFRO-PESSIMISMO. A África do Sul e a Nigéria estão na linha da frente de campanhas de reverter esse fenómeno agravado pela globalização. Essas campanhas visam minimizar os aspectos que desvirtuam o carácter de uma política para um Desenvolvimento auto-sustentado, tornando-se necessário consciencializar politicamente o africano, sobretudo os jovens quadros, a se orgulharem do seu passado. Mas para isso é necessário saberem de onde vieram para poderem saber para onde vão. Sem passado não há presente e muito menos futuro.

A União Europeia tem uma componente ideológica de coesão assente na cultura de um cristianismo (herança medieval) e de uma História da antiguidade clássica grega e romana firmada séculos antes de Cristo, reassumida numa era chamada de Renascentista entre os séculos XIV a XVI projectada num Iluminismo da consolidação da escravatura e do capitalismo mercantilista ao colonialismo puro e duro até quase ao final do século XX. No século XVII (1600) a partir do pensamento religioso de um calvinismo do lucro, a América tornar-se-ia realidade à custa do genocídio dos nativos americanos e com a mão-de-obra forçada do negro africano arrancado brutalmente de África pelos europeus, com maior quota do tráfico protagonizada por portugueses e espanhóis. (Toda a Europa, sem excepção, participou nesse processo histórico).

As dissimetrias étnicas dos E.U.A e conflitos sociais actuais, são consequência desse passado trágico, euro-africano. Observe-se com o máximo de isenção e sabedoria o que se passa nas eleições primárias norte-americanas entre Hillary Clinton versus Barack Obama (Demos) e John McCain (Rep.). Todos os fantasmas do passado estão em destaque nos debates implícitos e des-plícitos de ismos mal assumidos, sobretudo pela dinastia Clinton e McCain, encurralando Obama que tenta evitar cair nesse campo minado.

Parte 2

Jornal Autarca e ZOL
Dialogando (2/2)
João Craveirinha

QUO VADIS MOÇAMBIQUE?
SOMOS SEMPRE REFLEXOS
DO NOSSO PASSADO,
PORQUE NUNCA NASCEMOS HOJE!

"A memória do passado é o que sobrevive quando esquecemos o que aprendemos no presente. O futuro será sempre uma incógnita por mais que o planifiquemos". João Craveirinha

O QUE SOMOS HOJE É REFLEXO DO QUE FOMOS EDUCADOS ONTEM E O QUE PROJECTARMOS PARA AMANHÃ. E tudo tem a ver como lidamos com a memória colectiva; leia-se História. Mas aí está o problema se não sabemos a nossa história como o poderemos fazer? Se negamos quem somos como seguir em frente? Não haverá ideias para além da cegueira do dinheiro pelo dinheiro. Ora isso é tudo menos projectar ideias para um desenvolvimento social e económico saudável.

Muitos projectos de desenvolvimento para África (neste caso Moçambique) têm enfermado de um pressuposto de não beneficiar devidamente as suas populações, mas de desenvolver elites egoístas e corruptas, boçais (ainda que vestindo roupas de marca e automóveis de luxo), sendo absorvedoras do que há de mais ultrapassado nos aspectos culturais do marketing do consumismo e ostentação do luxo na miséria e na maneira de pensar a vida – a way of life – frase do antropólogo social neozelandês, Raymond Firth (1901-2002). Retomada pela "Escola de Frankfurt" – 1923/1950, numa definição do que é Cultura dentro de um ponto de vista de "teoria crítica da sociedade". (Ver T. Adorno, W. Benjamim e M. Horkheimer)

É um pouco como antes escrevera o grande poeta português, Guerra Junqueiro, há cerca de 112 anos (1896). Mas neste caso, leiam como se fosse hoje, e, em Moçambique o fomento de: "(...) Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não discriminando já o bem do mal, sem palavra, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados (?) na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros (fingidos) e sevandijas (parasitas – xiconhocas), capazes de toda a veniaga (vigarices) e toda a infâmia (boatos), da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política (moçambicana) sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis… (na cadeia da Machava, pois)… "Se o Nazareno, entre ladrões, fosse hoje crucificado em… (Moçambique), ao terceiro dia, em vez do Justo, ressuscitariam os bandidos. Ao terceiro dia? Que digo eu! Em 24 horas andavam na rua, sãos como peros, (…)."
(com a devia vénia pela paráfrase a Guerra Junqueiro)

O cientista francês, Antoine-Laurent Lavoisier (1743-1794) afirmou: "Na natureza nada se cria tudo se transforma". Como na vida e na história dos Países. Todas as épocas são transformações de épocas passadas. É preciso estar atento e ver com olhos de pensar e deixar de ser invejoso quando outro africano tem alguma preocupação na área de desenvolver com educação um debate: (ou alguém invejoso que faz como o camaleão e se infiltra para fazer confusão assumindo uma identidade de negro baNto sem o ser). Bem, na questão do complexo colonial do negro, eis o que escreveu em 1935, Nnamdi Azikiwe, 1904 / 1996 (filósofo nigeriano e 1º Presidente da Nigéria): -
"The black man enemy is the black man. The black woman is the black woman enemy". (…"ele que se encontra no último degrau da escada social se indigna quando outro africano (negro) quer sair da pobreza e se esforça nos estudos e na vontade de se superar…aí outro negro seu vizinho, que sofre de afro-pessimismo, desmoraliza-o, faz de tudo, para o impedir de subir na vida"…é mais ou menos este o sentido retirado do livro Renascent Africa, by Nnamdi Azikiwe). Em muitos locais isto é evidente. Até aqui entre os leitores. Só o conhecimento da nossa memória colectiva nos poderá fazer sair deste círculo vicioso. É essa uma das razões do maior atraso dos africanos que foram colonizados pelos portugueses numa afro-Lusofonia entorpecente. Esse afro-pessimismo complexado, do próprio negro, numa falta de auto-estima lúcida e consciente com bases, impede-o de enfrentar qualquer discurso desmoralizador racista do branco, acabando de concordar com o que o deita abaixo a si e a todos seus iguais. É o tal dito molequismo. Daí a inveja a seu próprio patrício negro ou negra, é a mesma passada. Atenção não da dança. Eeheheh (risos). Melhor mesmo rir para não chorar neste século XXI, do avanço tecnológico mas de retrocesso das ideias numa globalização com declínio de soberanias nacionais, que poderíamos resumir em três aspectos fundamentais, de uma Aldeia Global preconizada pelo canadense Marshall McLuhan: 1. Económico (global business). 2. Transportes e comunicações, 3. Cultural: base de todas as ideologias dominantes assentes na manipulação da História.

Economia mundial (Weltwirtschaft), economia global sobrepondo-se a uma Economia política massificada a nível nacional – popular, no sentido administrativo de gestão (Volkswirtschaft).
Comunicação (Transportes e "auto-estradas da informação" – satélites; encurtando distâncias).
Indústrias da Cultura (propagação de novas ideologias do "main stream" assentes em máquinas de consumismo desenfreado e vertiginoso do promoção do marketing numa atitude crítica passiva do consumidor apoiada na Rádio, Cinema, Televisão e a Internet (I-pod) criando ainda comunidades das novas tecnologias).
A única forma de superarmos o subdesenvolvimento material e do espírito é desenvolver a capacidade do acto de PENSAR o País, com bases científicas e fundamentadas. O resto não importa. Enquanto a caravana passa os cães ladram e as quizumbas dão gargalhadas de estupidez. JC

Anexo – Conceitos científicos
n Global village- Glossary - practices of looking, página 356
n Globalization - idem página 356

Quarta-feira, Abril 23, 2008

Salario Minimo e Mercado de Trabalho em Debate sábado 105.5 FM

No Próximo sábado, dia 26 de Abril pelas 13:15h na Rádio Índico 105.5 FM em Debate "A Negociação do Salário Mínimo em Moçambique"

Participe, envie os seus comentarios sobre o tema para mocambicando@gmail.com

Radio Índico 105.5FM

Sexta-feira, Abril 11, 2008

MUGABE É APENAS UM DOS BONS ALUNOS DA POLÍTICA OCIDENTAL

MUGABE É APENAS UM DOS BONS ALUNOS DA POLÍTICA OCIDENTAL


Por Gustavo Mavie


Se o desfecho que o governo de Robert Mugabe vier a dar ao enigma das eleições realizadas no seu país a 29 de Março último for, definitivamente, o de renegá-las mesmo que se venha provar que as perdeu, como tudo indica ser essa a sua intenção, não há duvida que será apenas mais um político que se irá impor contra a vontade da maioria, expressa na boca das urnas, com a diferença de que, desta vez, quem estará por detrás dessa rejeição, não desfruta da bênção e muito menos do apoio e da protecção das poderosas nações ocidentais.
Com efeito, e para o benefício dos que não sabem ou têm memória curta, já antes deste caso, houve outros povos que viram as suas vontades anuladas, como foi o caso da vitória da Frente Islâmica, na Argélia, que tinha sido a preferência do povo daquele pais numa das eleições realizadas na década passada naquele país, mas que o governo argelino dessa altura preferiu ir à guerra com aquele partido islamista, que defende o fundamentalismo. Há que recordar que para tomar essa decisão de anular e considerar nula e sem efeito essa vontade da maioria dos argelinos, o mesmo governo argelino teve a bênção e o apoio camuflado das mesmas nações ocidentais, que viram nisso como correcto, dado que para eles, todos os fundamentalistas são uma espécie de células ou agências activas dos terroristas de bin Laden.
Do rol de eleições anuladas ou melhor, asfixiadas, e cujos vencedores se viram hostilizados e combatidos por todo o tipo de armas pelas nações ocidentais, afigura-se, em ponto grande, a vitória do Hamas na Palestina como o caso mais gritante, e que a menos que a memória nos falhe, não há paralelismo na historia da humanidade.
Como nós todos nos recordamos, após a vitória do Hamas, os mesmos países ocidentais que tanto se arvoram de campeões da democracia, seus defensores e promotores acérrimos, como se pode ver agora no Iraque - onde os EUA e o punhado de seus aliados têm estado a matar impiedosamente todos os que se opõem à sua democracia - aplicaram sanções àquela formação política palestiniana para inviabilizar a sua governação. E inviabilizaram mesmo porque como dizia Mandela durante a primeira Cimeira Social realizada no ano de 1995 em Estocolmo, está mais do que provado que não se pode ser bom governante, ou ter-se uma democracia em bom estado de saúde, quando se tem um povo sem nada para comer e hospitais sem medicamentos. Como sabemos, os EUA aplicaram ao Hamas sanções selectivas, especialmente de raiz financeira mas que nem com isso deixaram de afectar o povo palestino, tal como o fazem agora à ZANU-FP e aos seus líderes, porque para eles, aquela formação política palestiniana é um bando de extremistas e terroristas que ameaça a civilização ocidental, não obstante tenha sido democraticamente eleita pelo seu povo. Com essas sanções, os EUA e os seus aliados quiseram dizer com elas que não estavam de acordo com a sua opção em termos do partido que deve dirigir os seus destinos.
Quer dizer, para eles, é legítimo e justificado a todas as luzes negar as opções políticas dos povos, proclamadas através da votação nas urnas, mas já negam esse direito aos outros, como está acontecendo agora com Mugabe.
Bem vista a coisa, deviam entender que tal como eles, os outros governos os seus próprios inimigos, que portanto não os pode reconhecer de forma alguma o direito de desfrutar do poder, ou de os substituir na liderança do seu país. Ora, se os EUA e todos os seus aliados não aceitaram que a Frente Islâmica ou, já agora, o Hamas, governasse, como era a vontade da maioria dos argelinos e palestinianos, porque é que Mugabe não pode negar dar o poder ao MDC e a Morgan Tchvangirai, em função da animosidade que nutre deles ou do que ele acha que são, que é que são uma criação dos inimigos do Zimbabwe, tanto mais que nunca escondeu. E não valerá de nada tentar questionar o método que um certo governo usa para definir os seus inimigos, porque, como Mandela disse uma vez, os inimigos de uns, podem ser amigos de outros e vice-versa, daí que ele tenha se recusado aceitar os apelos de certos países ocidentais que queriam que ele se abdicasse da sua amizade com certos líderes que neste caso o Ocidente não os quer ver mesmo que estejam pintados a ouro, como o Coronel Khadafy e Fidel Castro, como era a vontade de certos países ocidentais. É que esta coisa de se ser amigo ou inimigo deste ou daquele é complicado. Por exemplo, durante as lutas pelas independências aqui na África Austral, o Ocidente alinhou com os regimes colonialistas e racistas, indo ao ponto de os fornecer as armas com que combatiam os movimentos de libertação, porque os via como agentes do terrorismo e da expansão do comunismo internacional.
Ora, vai daí que, do mesmo modo que para o Ocidente foi um erro que argelinos e palestinianos tenham votado pela Frente Islâmica ou Hamas, também Mugabe pode estar a considerar que os seus compatriotas se enganaram e votaram no MDC. Tanto mais que nem sempre a maioria tem razão. É só ver como é que o povo da Guiné-Bissau elegeu um Kumba Yalá. Ou será que tais países ocidentais não dão validade à célebre frase da então Primeira-Ministra britânica, Margareth Thatcher, de que nem sempre o que tem o apoio da maioria é correcto? É preciso ver que uma das provas de que ela tinha e tem razão, é que mesmo Hitler que foi eleito democraticamente, ele desencadeou a pior guerra mundial de que já se registou na face da Terra. E porque é que tem que ser Mugabe a respeitar religiosamente a vontade da maioria do seu povo, se os EUA e todo o Ocidente não respeitaram a vontade dos palestinos.
Se os EUA não aprovaram a vontade dos palestinianos, porque entendem que o Hamas é uma organização terrorista, caso Mugabe venha a negar de vez entregar o poder ao MDC, ou partilhá-lo com este movimento, deviam aceitar essa sua opção, porque para ele também o MDC e o seu líder não são uma oposição legítima, mas sim, uma criação e prolongamento do imperialismo, como bem o vinca ele numa entrevista que deu ao NewAfrican, e que foi publicado na sua edição de Maio do ano passado.
Para ele, é esse imperialismo que tem imposto ao seu país sanções económicas veladas, que acabaram provocando o descontentamento da população, com a intenção de levá-la a votar na oposição como parece ser o caso agora. De resto, ele pode ter razão, já que todo o mundo sabe que regra geral, o propósito das sanções é provocar o descontentamento no seio das populações, para que durante as eleições vote contra o governo do dia, para que possa derrubar, sem que se recorra à força das armas.
Dito doutro modo, as sanções são a arma preferida do Ocidente para derrubar um regime que eles não gostam e que se sujeita a eleições periódicas, como é o caso do Mugabe. Onde não há eleições, este tipo armas não costuma ser bem sucedida, dai que se recorra à força das armas, como foi o caso do Iraque onde as sanções não surtiram o desfecho que se esperava, que era derrubar Saddam Hussein para se ter o petróleo que ele não deixava ser explorado ao preço da banana. Como se viu que as sanções não resultavam, forjou-se um facto e acusou-se lhe de ter armas de destruição massiva, e se lhe derrubou com a força das armas. Para não correrem o risco dele voltar um dia ao poder, executaram-no, mesmo depois de se provar que não tinha armas nenhumas e muito menos ligações com a Al Qaeda.


NEGAR O DIREITO E OPÇÕES DOS POVOS É UMA VELHA PRÁTICA DO OCIDENTE


Na verdade, o terem negado reconhecer a opção pelo Hamas da maioria dos palestinianos ou da Frente Islâmica pelos argelinos foi uma continuação da sua velha prática do Ocidente de se opor a tudo o que não serve os seus interesses. Já antes, as nações ocidentais mostraram-se contra a luta que os então povos colonizados travavam contra os países que os colonizavam, como foi o caso de nós moçambicanos.
Por exemplo, quando o povo sul-africano lutava contra o apartheid, e o seu líder carismático Nelson Mandela minguava na cadeia, os países ocidentais forneciam armas àquele regime, alegando que o faziam porque estava lutando contra a expansão do comunismo internacional.
Aliás, o mesmo Mandela viria, após sair da cadeia, elogiar Cuba num discurso que pronunciou quando da visita de Fidel à Africa do Sul, castigando na altura todos os que insistiam que ele renegasse a amizade que mantinha com o líder cubano e o seu país da seguinte maneira: muitas pessoas, muitos países, incluindo muitos poderosos, têm nos instado a condenar a supressão dos direitos humanos em Cuba. A todos temos recordado que têm uma memória curta. Isto porque quando batalhávamos contra o apartheid, contra na opressão racista, os mesmos países apoiavam o regime do apartheid – um regime que apenas representava 14 por cento da população, enquanto a maioria do povo do país não tinha nenhum direito. Eles apoiaram o regime do apartheid. E nós acabamos combatendo com sucesso o regime com o apoio de Cuba e outras forças progressistas, disse Mandela em tom sereno e naquela sua voz vibrante, antes de vincar que agora eles querem que sejamos apenas seus amigos, indo ao ponto de se darem ao luxo de nos instar a renunciarmos aqueles povos que nos ajudaram a fazer da nossa vitória possível.
Tal como o dizia nesse discurso Mandela, é curioso notar que os mesmos países ocidentais que hoje fazem barulho para que Mugabe aceite a derrota tangencial neste caso que parece ter sofrido, não param também de lançar criticas aos restantes países da região, acusando-os de nada fazer para forçar o líder zimbabweano a ceder o poder.
O que eles querem, é que os líderes da região renunciem a amizade que têm com o Mugabe que com eles marcharam nas mesmas fileiras no tal tempo em que os povos da região era tratados como bestas para carga, e por isso mesmo lutavam pelas suas independências ou pela erradicação dos regimes racistas. Não aceitam que os outros tenham os seus amigos e aliados, tal como eles os têm e nunca os abandonam em momento algum, como sabem defendê-los a todo o custo, como o têm feito em relação a Israel, não obstante esteja a ocupar há mais de 60 anos as terras palestinas, e esteja a matar todos os que são contra essa ocupação, tal como os EUA têm estado a matar todos os iraquianos que são contra a ocupação do seu país.
Como bem o diz Mugabe, os ocidentais pecam por negar aos outros povos, o que eles mesmo fazem, como quando eles teimam em manter os arsenais nucleares, mas já não aceitem que outros países as tenham também.
Como já disse num dos artigos, esta atitude do Ocidente de negar aos outros o que eles fazem e praticam com a maior das naturalidades, leva-me a compará-los àqueles mulherengos que não toleram que as suas esposas tenham também amantes. Eles podem se opor à vitória do Hamas, como à eleição de um Allende que acabaram apoiando a sua morte trágica pelo regime de Pinochet em 1973, para não implantar o comunismo no Chile, mas já Mugabe não pode se opor a ascenção ao poder de um partido que, para ele, ´´não é mais do que uma criação de Tony Blair e do seu aliado George Bush´´, para que seja alternativa aos seu governo, de modo a que promova no Zimbabwe os interesses da Grã-Bretanha e dos EUA.

PARA MUGABE O SEU PAÍS ESTÁ EM PÉ DE GUERRA CONTRA O OCIDENTE

O que poderá levar Mugabe a fincar os pés, e a optar por não ceder o poder que ainda detém, é que ele entende que o seu país está sendo alvo de duas guerras que visam derrubá-lo a si e ao se governo – que é a guerra económica, que se traduz em sanções do tipo bloqueio como se tem imposto a Cuba, e que, como se sabe, provoca a carência de quase tudo, e a guerra psicológica, que visa moldar um pensamento anti-Mugabe na mente dos zimbabweanos, para que pensem em função da perspectiva que o Ocidente quer que pensem.
Lendo o que Mugabe tem dito, tudo indica que ele acredita que o momento em que o país vive não permite que todos os zimbabweanos pensem e analisem tudo o que se está passando de modo lógico e correcto, daí que ele poderá preferir anular o resultado eleitoral, uma vez que parece estar convencido que se está em presença da tal maioria que não está correcta.
Aliás, pouco antes das eleições de 29 Março último, Mugabe já havia deixado claro que nunca iria entregar o poder à oposição, porque, para ele, esta mesma oposição foi criada de fora para agir como Pôncios Pilatos.
Ora, se para Mugabe tudo se resume numa guerra económica e psicológica, o mundo deve estar preparado a vê-lo lutar até ao fim, porque como se diz, os homens se tornam mais obstinadas e teimosas à medida que a sua idade avança. E Mugabe conta agora com a respeitada idade de 84 anos, o que certamente lhe permitiu ver tanta coisa boa e, acima de tudo, ruim, porque, infelizmente, é o que mais abunda no mundo, incluindo o insólito ocorrido nos EUA, em que Bush teve menos voto popular, mas que se apoderou do poder na sua primeira eleição, quando a maioria dos americanos havia optado por Al Gore. São estas e outras coisas que deverão levar o velho Mugabe a dizer no seu apurado inglês frases como esta: if Mr Bush did assume the presidency withouth having been voted for by the majority of his people, why should I not do the same as well, o que, em português, significa que ´´se o senhor Bush assumiu a presidência sem ter sido votado pela maioria do seu povo, porque é que eu não posso fazer o mesmo!Esta é a questão que se deve tomar em consideração pelos que acham que Mugabe deve entregar o poder ou reconhecer a derrota. Não é coisa fácil para ninguém, incluindo para os que se arvoram de pais da democracia. Que o diga Kibak e Bush que tiveram de dar o pontapé ao voto popular… Para mim, Mugabe é apenas um bom aluno do Ocidente. Para tal, basta ver como ele assimilou a língua inglesa.
gustavomavie@gmail.com

Quinta-feira, Abril 10, 2008

Ambiente Juridico-Legal em Moçambique em Debate 105.5FM

Ambiente juridico-legal em Moçambique, que constrangimentos e desafios?

Este é o tema em debate no Próximo Sábado, dia 12 de Abril de 2008, pelas 13:15h na Rádio Índico 105.5 FM. Contamos com os seus comentários em relação ao tema.

Sintonize 105.5 FM

Quarta-feira, Abril 09, 2008

Economistas dos CPLP: Integração Regional em Debate

Os Economistas dos Países de Lingua Portuguesa estão reunidos desde hoje em Maputo para em torno da integração regional, debater temas de interesse para a classe dos economistas destes países sobre os desafios desta nova ordem internacional.
Pese embora a integração regional para Moçambique leve-nos mais a uma integração na comunidade da Commonwealth por força geográfica e das relações que Moçambique tem com os Paízes fronteiriços, o factor lusofonia pode levar-nos àquilo que disse a Economista Miquelina Menezes, Presidente da AMECON na cerimonia de abertura do encontro, que a reunião representa uma troca de experiência destes países sobre os seus processos de integração económica regional.
Na ocasião tive a oportunidade de acompanhar atentamente o Ministro da Indústria e Comercio, António Fernando, que fez uma apresentação sobre a integração regional e o seu impacto em Moçambique, tendo apontado vários aspectos dos quais pude reter o papel dos corredores de Desenvolvimento de Maputo, Beira e Nampula para a economia nacional e a sua ligação com a economia da região e também a construção da Estrada Maputo-Witbank que reduziu as distancia e assim os custos de transacções entre Moçambique e a Vizinha África do Sul.
Apesar destas vantagens dos corredores de desenvolvimento que já existem, sou de opinião que o grande desafio para o futuro é a existência de um corredor de desenvolvimento Nacional em Moçambique, um corredor de desenvolvimento Norte-Sul ou vice versa. Os actuais corredores garatem uma forte ligação da economia Nacional com os Países vizinhos, garantem a entrada e saída de milhares de insumos dos países do interior usando os portos, caminhos de ferro e estradas nacionais, mas é importante que Moçambique tenha uma Linha que permita um fluxo desses insumos dentro do País, do norte ao sul, um CPRREDOR DE DESENVOLVIMENTO DE MOÇAMBIQUE, também para fazer face à integração regional.
Em relação à estrada Maputo-Witbank, só me preocupa o facto de termos uma portagem a menos de 10 km da Capital do País, facto que encarece o custo de viajar entre Maputo e Matola, duas cidades praticamente ligadas entre si. Apesar de a construção desta estrada ter reduzido a distancia entre Maputo e Ressano Garcia em cerca de 30Kms e de ter melhorado as condições da estrada, também encareceu os indivíduos que têm que atravessar diariamente a portagem para se deslocarem aos seus postos de trabalho.
Portanto, a integração regional tem vantagens macro-económicas, mas também têm custos e é ai onde se encontra a questão central, a análise, por parte de economistas e académicos da relação custo-benefício quando se fala de integração económica regional, e temos o caso de Angola, que por enquanto ainda não aderiu à zona de comércio livre na SADC, como um caso de estudo para ser analisado no futuro. Será que Angola fez uma boa opção? Será que Moçambique no seu actual estágio, estará em condições de ser um país concorrencial ao nível da região?
Não é por acaso que o Presidente da República Armando Guebuza saudou a escolha do tema na sua intervenção, e disse que o debate levado à cabo em Moçambique, durante o ano 2007, sobre a abertura do comércio livre trouxe ao de cima várias questões económicas e Sociais e ainda há outros desafios pela frente tais como a união aduaneira e a união monetária. o Presidente reconheceu a complexidade que este assunto envolve.